Título: Deus na Escuridão
Autor: Valter Hugo Mãe
Género: Ficcção, Romance
Data de Lançamento: Janeiro 2024
Editora: Porto Editora
Páginas: 288
ISBN: 978972003099314
Classificação: 5/5
Terminado em Agosto de 2025
Wook: Deus na Escuridão
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“Deus na Escuridão”, de Valter Hugo Mãe, é um romance poético que retrata a vida numa comunidade madeirense, marcada pela pobreza e religiosidade. Através da relação entre Felicíssimo e o irmão Pouquinho, explora o amor incondicional, comparado ao amor divino e materno. Uma obra tocante, que transforma o quotidiano em poesia e afeto profundo.
Resenha
“Deus na Escuridão” de Valter Hugo Mãe é um romance que nos leva até à Ilha da Madeira, numa comunidade marcada pela religiosidade, pobreza e tradições enraizadas. A narrativa gira em torno da relação entre dois irmãos — Felicíssimo (Paulinho), o narrador, e o irmão mais novo, Serafim, apelidado de Pouquinho. « Pouquinho nasceu sem as origens. (…) Talvez fosse de continuar a nascer mais tarde. Poderia não ter nascido por completo. (…) Por todo o modo, o doutor garantia que Pouquinho seria sempre assim, abreviado. (…) A partir de então, eu seria conhecido como Felicíssimo Irmão, o Felicíssimo. Felicíssimo dos Pardieiros. Irmão de Serafim, que, por ser abreviado, todos chamariam de Pouquinho. »
Felicíssimo assume a proteção do irmão como missão de vida, chamando-lhe santo, o seu pequeno milagre. « O meu santo era improvável. Sofrer por ele seria incondicional. Inevitável. Eu haveria de o seguir se ele tivesse de ir já embora. »
O título revela-se a meio do livro, quando o amor fraterno de Felicíssimo é comparado ao amor incondicional de uma mãe, que ama como Deus. « Deus é exatamente como as mães. Liberta Seus filhos e haverá de buscá-los eternamente. »
« A casa de Deus tem a chave do lado de fora, debaixo de um vaso. Toda a gente o sabe. É tique de todas as mães que dormem lá dentro vulneráveis a qualquer ladrão em troca da oportunidade de, ao menos uma vez, um filho voltar, tomar a chave e entrar, mesmo que a meio da noite, no descanso profundo, entre os sonhos, porque, de todo o modo, o maior sonho possível é esse mesmo, que o filho volte e ocupe sua cama, ocupe seu lugar. (…) Deus espera na escuridão. »
O tempo passa e Pouquinho casa, desfiando todas as previsões de futuro que lhe tinham sido feitas. Porque as origens nunca definem a possibilidade de amar. E o seu amor pelo irmão leva-o a pedir-lhe um favor que só alguém que ama como Deus poderia considerar. Um favor que envia Felicíssimo para uma escuridão imensa. Mas que o amor sempre tem a capacidade de resgatar e de o trazer para a luz.
Uma obra carregada de emoção, amor, insularidade e cultura. É ao mesmo tempo inquietante mas discreta, tocante mas leve, complexa mas simples. Uma leitura que vale a pena pela profundidade do afeto que mostra pela família e pela Ilha da Madeira. Uma mestria nas metáforas que nos leva a imaginar cada detalhe e cada sentimento de todas as personagens.
Esta é uma obra que transforma algo ordinário em algo poético e verdadeiramente divino.
Alguns excertos favoritos
« Ao menino que nasceu sem orgão sexual falta até o nome próprio: quase sempre omite-se que ele é Serafim » – Prefácio, Carlos Reis
« Os irmãos, haviam-me explicado, são uma companhia para sempre, para depois da morte de todos os mais velhos. »
« Minha mãe era quem dizia. Que os brasileiros falavam português às cores. Mesmo que a televisão fosse a preto e branco. E entendia quase tudo. Ela dizia. Entendia quase tudo. Para algumas expressões, por serem tão estrangeiras, minha mãe, assim como as outras senhoras, era daltónica. »
« A paz de minha mãe era depois da paz dos filhos. Jamais antes. (…) E eu aguardei só por meu pai, porque era de se pedir ao doutor que auscultasse o medo de minha mãe. »



