Título: O Poder da Geografia – Dez mapas que revelam o futuro do mundo
Autor: Tim Marshall
Género: Não Ficção, Política
Data de Lançamento: Outubro 2021
Editora: Desassossego
Páginas: 304
ISBN: 9789899033399
Classificação: 5/5
Terminado em Outubro de 2025
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“O Poder da Geografia”, de Tim Marshall, revela como a geografia molda o futuro do mundo. O livro analisa 10 regiões-chave, mostrando como montanhas, rios e fronteiras influenciam política, economia e conflitos globais, ajudando a entender alianças e tensões internacionais.
Resenha
Em primeiro lugar, importa dizer que este livro é a sequela de um bestseller, o Prisioneiros da Geografia, que também já li e já partilhei a minha resenha.
« A geografia é um fator-chave na limitação do que a humanidade pode ou não fazer. Sim, os políticos têm importância, mas a geografia tem mais. As escolhas que as pessoas fazem, agora e no futuro, nunca estão apartadas do seu contexto físico. O ponto de partida da história de qualquer país é a sua localização relativamente aos vizinhos, às rotas marítimas e aos recursos naturais. Vivemos numa ilha varrida pelo vento da periferia do oceano Atlântico? Estamos bem colocados para aproveitar o vento e as ondas. Vivemos num país em que o Sol brilha 365 dias por ano? Os painéis solares são o caminho. Vivemos numa região com minas de cobalto? Pode ser uma benção e uma maldição. »
Principais conclusões por capítulo
1. Austrália
« A Austrália moderna continua a ser o “país da sorte”. »
- Geografia: isolada entre os oceanos Índico e Pacífico, com vastas distâncias internas, enormes áreas desérticas e uma população concentrada na costa leste.
- « A maioria compreende aquilo a que se chama Outback, cerca de 70 por cento da Austrália, em grande parte inabitável. »
- « Tem de facto algumas vantagens: seria difícil invadir a Austrália (…). »
- Desafios: projeção de poder limitada devido à distância dos centros globais de influência e vulnerabilidade a pressões da China.
- Estratégia: fortalecimento de alianças com potências como os EUA e o Reino Unido e investimento em defesa marítima.
- « A Austrália tem-se concentrado na diplomacia, escolhendo cuidadosamente os seus aliados. »
- « Por agora, Camberra tentará tanto encetar um diálogo construtivo com Pequim, com um olho na economia, como manter a defesa e ouros laços com os EUA, e irá “jogar duro até ao fim”. »
2. Irão
« O Islão ou é político ou não é nada » Aitola Khomeini, antigo líder supremo da República Islâmica do Irão
- Geografia: região montanhosa e estratégica entre o Golfo Pérsico e a Ásia Central.
- « As montanhas fazem do Irão uma fortaleza »
- « Internamente, a paisagem desolada e inclemente é a razão para a maior parte dos iranianos viverem nas montanhas. Dada a dificuldade na travessia, as regiões montanhosas povoadas tendem a desenvolver culturas distintas. »
- « A escassez de água é um dos diversos fatores de atraso económico do Irão. »
- « A energia é a exportação mais importante do Irão (…) jazidas de petróleo »
- « Um dos motivos para o país nunca ter sido potência marítima é a facilidade com que pode ser impedido de chegar ao oceano. »
- Desafios: religião, isolamento internacional (político e económico) e sanções e rivalidade regionais.
- « A ideia, arreigada na crença xiita, defende que o religioso mais erudito deve ter o controlo político e religioso. Assim, Khomeini fez-se líder supremo e o cargo ficou salvaguardado na Constituição. (…) o sistema de escolha da figura principal não difere da maneira como se elege o Papa católico, mas o Papa não passa a ser comandante das forças armadas do país, nem tem poder para declarar guerra.»
- « (…) para cada jovem dissidente encontrado há outros jovens instruídos a fazer fila para empregos de designers gráficos, guionistas, videógrafos, e outros papéis na produção de filmes em empresas relacionadas com a Guarda Revolucionária. Pagam bem. Se este aspeto do Irão não for explicado, o espetador poderá ter dificuldade em compreender por que razão, tendo visto toda essa juventude a exigir mudança, a mudança não se dá. »
- « Foi, é e continuará a ser uma teocracia revolucionária. Como tal, tem princípios fundamentais e não pode alterá-los sem se prejudicar. Imagine-se um presidente francês a declarar que já não é a favor da igualdade da divisa nacional, Liberté, Égalité, Fraternité. »
- Estratégia: expansão de influência através de aliados e controle de rotas energéticas.
3. Arábia Saudita
« Se quisermos resolver ou gerir um problema, temos de o definir. Na Arábia Saudita, o problema define-se em duas palavras: Arábia e Saudita. »
- Geografia: localizada no coração do Oriente Médio, rica em recursos em petróleo, mas com escassez de água e terras férteis.
- « Continua a não haver muito mais do que petróleo e areia. Foram as fontes de energia fóssil a catapultar a Arábia Saudita para o século XX. »
- Desafios: religião, dependência do petróleo, pressões internas por reformas sociais e externas por segurança regional (rivalidade com o Irão).
- « A criação de uma das sociedades mais estritas do mundo moderno não se fez inteiramente com o acordo de toda a população. »
- Após algumas revoluções internas de insurgentes contra o poder da religião no país em 1979, houve um « efeito a longo prazo (…) uma liderança em pânico e a rejeitar todas e quaisquer ideias de modernização do país na esfera social. (…) A solução para o problema? Mais religião. » Seguiram-se muitas leis e proibições para mulheres e o reforço da polícia e da educação religiosa.
- Estratégia: manutenção de alianças estratégicas, especialmente com os EUA, liderança no mundo muçulmano, diversificação económica e modernização social.
- « O petróleo também é a base da relação do país com o seu maior aliado e protetor: os EUA. »
- « “O modelo chinês de “capitalismo estatal” é apelativo para a maioria dos políticos árabes. O “liberalismo económico” dissociado do liberalismo político é um modelo seguido pela maioria dos governos na região e, nas últimas décadas, o modelo chinês é tido como um sucesso. »
4. Reino Unido
« (…) O Reino Unido ainda tem um enorme potencial mercado de consumidores na Europa, acesso direto a vias marítimas nos oceanos e uma longa história de inovação, educação de qualidade e excelência comercial, ou seja, permanece sendo uma das dez economias mundiais cimeiras. »
- Geografia: ilha no noroeste da Europa, com acesso ao Atlântico e proximidade com a Europa continental.
- « Tem acesso direto ao canal da Mancha, ao mar do Norte, ao mar da Irlanda e ao Atlântico. »
- Desafios: equilibrar interesses globais com questões internas, redefinir o seu papel após o Brexit.
- « A maioria dos países tem diferenças regionais, mas poucos as têm tão acentuadas ao longo de áreas tão pequenas como o RU. (…) A principal divisão geográfica (…) define-se pelas terras altas e pelas terras baixas. »
- Estratégia: fortalecimento de parcerias globais históricas (EUA e Commonwealth) e adaptação a novas dinâmicas geopolíticas (com investimento em defesa marítima).
- « Será necessária outra estratégia híbrida alinhada com Washington, mas que, de algum modo, deixe a porta aberta a boas relações políticas e económicas com Pequim. (…) será “desafiante”. »
5. Grécia
« Estes dois fatores – montes e água – são fulcrais para compreender o passado, o presente e o futuro da Grécia. »
- Geografia: território fragmentado com milhares de ilhas e acesso vital ao Mediterrâneo Oriental.
- « A maioria da terra grega é montanhosa, arborizada ou de solo pobre. »
- Desafios: vulnerabilidade energética, tensões com a Turquia, limitações económicas e crise de migrantes.
- « Para aderir ao euro, Atenas deturpou a contabilidade e os membros da zona euro fizeram vista grossa. A economia desabou entre motins, greves e dificuldades sociais que não eram vistas há décadas. »
- « A Grécia, tal como Itália, acredita que lhe pedem para ser a polícia fronteiriça da Europa, mas sem verbas da UE. (…) A Grécia acredita que os turcos abrem fronteiras para deixar passar migrantes e refugiados, quando e onde Ancara entende, para destabilizar a Grécia. »
- Estratégia: apostar na UE e na NATO para segurança e influência, servindo como ponto estratégico entre Ocidente e Oriente.
6. Turquia
« A Turquia moderna está novamente na encruzilhada do Oriente e do Ocidente enquanto determina o seu papel no palco mundial. »
- Geografia: país ponte entre a Europa e a Ásia, controlando o Bósforo e os Dardanelos – passagem crucial entre mares e continentes.
- « Cerca de 97 por cento da terra fica na Ásia (…) tem fronteiras terrestres com oito países: Grécia, Bulgária, Geórgia, Arménia, Azerbaijão, Ião, Iraque e Síria. »
- Desafios: conflitos com a Grécia, questões curdas internas e instabilidade nas fronteiras com a Síria e o Iraque.
- A partir de 1923, « Atatürk (“pai dos turcos”) governou durante 15 anos e transformou o país, introduzindo uma série de reformas radicais para modernizar a Turquia, depois de concluir que modernização significava ocidentalização. »
- Depois de perder a esperança na adesão à UE « O país encetou paulatinamente outro rumo com um novo dirigente. O rumo foi uma volta ao passado para moldar o futuro, e o dirigente um homem que se tornou personificação do nacionalismo religioso e do neo-otomanismo: Erdogan. »
- Estratégia: política externa independente, procurando liderança regional e equilíbrio entre Ocidente e mundo islâmico.
7. Sael
O Sael é uma faixa que atravessa África de um lado ao outro. É uma das regiões mais vulneráveis do mundo, afetada por secas, pobreza extrema, conflitos armados, etc. Inclui partes de vários países: Senegal, Mauritânia, Mali, Burkina Faso, Níger, Chade, Sudão, Nigéria, Eritreia e Etiópia.
« É uma terra inóspita que moldou o povo e onde rareia a expectativa de uma vida confortável. »
- Geografia: faixa de transição entre o deserto do Saara e as savanas da África subsaariana.
- « As alterações climáticas exacerbam o problema. Quando faltam as chuvas, também faltam as colheitas. »
- Desafios: instabilidade política, extremismos, pobreza, mudanças climáticas e fronteiras artificiais herdadas do colonialismo.
- « O califado e a identificação com a Al-Qaeda e o Estado Islâmico são uma manobra de diversão. Esta gente é muçulmana, sim, mas a maioria não luta por um califado, pois as suas queixas antecedem o aparecimento do Estado Islâmico e estão muito mais ligadas a problemas locais e regionais. »
- Estratégia: necessidade de cooperação internacional e políticas sustentáveis para conter instabilidade e migrações.
- « A abordagem de Pequim tem ajudado a impulsionar o crescimento económico africano… mas também a consolidar alguns dos governos mais opressivos do mundo. »
« Sem boa governação, segurança e ajuda externa, o Sael não vai superar a miríade de problemas que tem. O colonialismo, a economia e os governos corruptos do pós-colonialismo têm permitido que extremistas estrangeiros explorem as fraquezas, a pobreza e a fragmentação social que grassam em toda a região. »
8. Etiópia
« São muitas as coisas que vêm da Etiópia – seres humanos, por exemplo. » numa referência a Lucy, a nossa antepassada.
- Geografia: localizada no Chifre de África, montanhosa e sem acesso direto ao mar.
- « A água define a posição e a importância geopolítica da Etiópia, a água doce é a principal força, e a salgada uma das fraquezas. »
- « A Grande Barragem do Renascimento Etíope dá à Etiópia uma oportunidade única de quebrar o ciclo secular de pobreza e violência étnica.»
- Desafios: tensões étnicas internas e disputas com países vizinhos (Sudão, Eritreia)
- «O país fica no centro de uma das regiões mais turbulentas do mundo. (…) tem de lidar com o afluxo de refugiados em fuga desses conflitos regionais. »
- « A Etiópia tem nove grandes grupos étnicos na população. Há nove áreas administrativas e duas cidades com governo autónomo, todas baseadas na etnia. Falam-se mais de 80 línguas. (…) Esta diversidade, a par com a geografia do centro do país, sempre entravou os esforços governamentais de união entre comunidades tão díspares. »
- Estratégia: fortalecimento da economia e papel crescente como potência regional africana.
« Se as classes políticas e empresariais conseguirem gerir bem a economia, e os políticos trabalharem juntos para unir o país, a “história de sucesso africano” será uma opção viável. »
9. Espanha
« Espanha moderna é uma história de sucesso. Sobreviveu ao colapso financeiro de 2008-09 e recuperou até se tornar uma das maiores economias da Europa. »
- Geografia: posição estratégica na Península Ibérica, com acesso ao Atlântico e ao Mediterrâneo.
- « (…) estreitas planícies costeiras deparam logo com grandes muralhas montanhosas. (…) garantiram que as diversas regiões mantêm fortes identidades culturais e linguísticas. »
- « Os Pirinéus servem de barreira ao invasor, mas também têm sido um obstáculo ao fluxo comercial. »
- Desafios: tensões internas (separatismo catalão) e desafios económicos.
- « Muitos países têm diferendos com vizinhos sobre a distribuição de água; Espanha tem-los internamente. »
- Espanha não quer uma Catalunha independente por vários motivos: 1) Defesa estratégica; 2) Riqueza da região; 3) Possível aliança da Catalunha com a China.
- Estratégia: integração na União Europeia e foco na estabilidade política e energética.
« Espanha continuará a enfrentar pressões externas, mas os principais desafios são internos e baseiam-se na geografia. No futuro mais próximo, o reino constituído no século XVI ainda terá de equilibrar as tensões de ser um Estado-nação composto por nações. »
10. O Espaço
« Quem estabelecer uma colónia soberana na Lua é colonialista? Os russos e os chineses acham que sim, e talvez tenham razão. »
- Geografia: o “novo território” estratégico além da Terra, com potencial para exploração e colonização.
- Desafios: competição entre potências (EUA, China, Rússia) por recursos, satélites e domínio estratégico.
- « As primeiras páginas da nossa história espacial já foram escritas e mostram-nos exemplos tanto de competição como de cooperação. »
- « Nas próximas décadas, o mais importante destes para o futuro da exploração espacial é o Espaço Terra, particularmente a órbita baixa da Terra. É onde são colocados os nossos satélites de comunicações – e cada vez mais os militares.»
- Estratégia: desenvolvimento de tecnologia espacial e criação de normas internacionais para o uso pacífico e comercial do espaço.
Conclusões finais
Tim Marshall lembra-nos que, apesar de todos os avanços tecnológicos e económicos, a geografia ainda tem um papel muito relevante na política e nos conflitos mundiais. Compreender o mapa dos países é compreender o poder e as intenções de cada país. Mais que isso, é perceber que o futuro vai continuar profundamente ligado ao terreno, principalmente com as guerras por recursos que as alterações climáticas inevitavelmente nos vão trazer.
« A geografia não é uma sina – os seres humanos têm voto na matéria – mas importa. »



