Título: Notas Sobre o Luto
Género: Não Ficção, Ensaios
Data de Lançamento: Maio 2021
Editora: Dom Quixote
Páginas: 112
ISBN: 9789722072076
Classificação: 5/5
Terminado em Outubro 2026
Notas sobre o Luto, de Chimamanda Ngozi Adichie, é um relato íntimo e comovente sobre a perda do pai da autora e a forma como o luto transforma a nossa relação com o mundo. Entre memórias, dor e amor, a autora reflete sobre a ausência e a dificuldade de aceitar a perda de alguém que fará sempre parte de nós.
Resenha Longa
« Como é possível o mundo continuar em movimento, a inspirar e expirar, inalterado, enquanto na minha alma se instalou uma dispersão permanente? »
Em Notas sobre o Luto, Chimamanda Ngozi Adichie escreve sobre a perda do pai, James Nwoye Adichie, que morreu em junho de 2020, durante a pandemia de COVID-19.
Num relato íntimo e pessoal, a autora partilha a dor de perder alguém tão importante e a dificuldade de aceitar uma realidade para a qual nunca estamos verdadeiramente preparados. Entre memórias de infância, momentos em família e recordações do pai, procura dar sentido à ausência de alguém que fez parte de toda a sua vida.
Ao longo do livro, reflete sobre a forma como o luto transforma o nosso quotidiano, as relações e a maneira como olhamos para o mundo. Fala da saudade, da revolta, da impotência e da estranheza de continuar a viver quando alguém que amamos já não está cá.
Este livro mostra-nos o que é viver e conviver com a ausência, com as contradições do luto e mostra-nos que a dor não segue uma ordem e não há um livro de regras para se fazer o luto. No fim de contas, « o riso faz, em grande medida, parte do luto. »
Alguns Excertos Favoritos
« A dor da perda faz-me mudar de pele à força, abre-me os olhos para a realidade. »
« Em vez de amparo, as minhas recordações trazem-me eloquentes punhaladas de dor »
« Há a vontade desesperada de sacudir este fardo e, em paralelo, o desejo de o mimar, de o estreitar a mim. É possível sermos possessivos em relação à nossa dor? »
« Uma parte da tirania do luto é que nos priva de recordar as coisas que realmente importam. »
« Viverei o resto da minha vida de mãos esticadas, à procura de coisas que já lá não estão. »
« Porém, se para o intelecto é fácil processar a premissa de que “cada pessoa faz o luto à sua maneira”, para o coração é muito mais difícil. »
« Só sabemos como faremos o luto no momento em que o fizermos. »
« Finalmente percebo porque é que as pessoas fazem tatuagens dos seus mortos. A necessidade de proclamar não só a perda, mas também o amor, a continuidade. »
« Um dos muitos componentes ilustres do luto é o despontar da dúvida. Não, não é imaginação minha. Sim, o meu pai era realmente uma pessoa bonita. »
Opinião
Notas sobre o Luto consegue fazer-nos sentir e pensar ao memso tempo.
Acima de tudo, sentimos a honestidade com que Chimamanda fala da perda. Não tenta romantizar a dor, encontrar-lhe um propósito ou transformar o sofrimento numa lição de vida. Mostra-nos o luto tal como ele é: confuso, injusto, doloroso e, muitas vezes, impossível de explicar.
É particularmente importante a forma como a autora nos lembra de que não existe uma maneira certa de viver o luto. Cada pessoa sente e reage de forma diferente, e não há um prazo para aprender a viver com a ausência de alguém. Há dias em que a saudade chega de mansinho e outros em que parece ocupar todo o espaço.
É um livro curto que li numa hora num dia de semana. Mas não menos importante por isso. Algumas passagens fizeram-me para e pensar na forma como lidamos com a morte, na dificuldade que temos em falar sobre ela e na tendência para procurar palavras de conforto quando, por vezes, o silêncio é suficiente.
Terminei a leitura com a sensação de que não precisamos de compreender a dor para a reconhecer. Nem de encontrar as palavras certas para estarmos presentes na dor dos outros.
Recomendo este livro a quem procura uma reflexão honesta sobre o luto, a família e os laços que permanecem para lá da morte. É uma leitura sensível e humana que nos lembra que o amor não desaparece com a ausência, porque o amor nunca morre.



