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Potosí: Prata, Poeira e Promessas – Visita Às Históricas Minas da Bolívia💰⛏️🏔️

Potosí: Prata, Poeira e Promessas – Visita Às Históricas Minas da Bolívia

Chegar a Potosí, na Bolívia, a 4090m de altitude é ficar sem fôlego. Pela altitude e pela profunda história que carrega de um passado colonial cujas feridas perduram no tempo, por gerações. Em Outubro de 2024 tive a oportunidade de conhecer esta cidade e explorar a sua história mineira.

A visita a Potosí fez parte de uma viagem de 15 dias pela Bolívia, que vou partilhar em breve. Fica, por agora, o itinerário e a agência com quem parti nesta aventura: Landescape Viagem Bolívia.

Potosí: a Cidade Que Alimentou Um Império

Potosí, bolivia, Outubro 2024
Potosí, Bolívia | Outubro 2024

Fundada em 1545, Potosí cresceu à sombra (e ao custo) do Cerro Rico, a montanha de onde os espanhóis extraíram toneladas de prata durante mais de três séculos. Chegou a ser uma das cidades mais ricas e populosas do mundo, alimentando o império espanhol com uma abundância de metais preciosos que contrastava com a miséria e sofrimento dos indígenas e escravizados que os extraíam.

Situada a mais de 4000 metros de altitude, Potosí é hoje Património Mundial da UNESCO e uma cápsula do tempo colonial onde as lembranças do que para uns foram tempos áureos ainda não apagaram o eco das histórias que ficaram por contar. 

Visita Às Minas De Cerro Rico

Dia 9 | 21 Outubro 2024

Depois de marcar esta viagem tinha visto que o programa incluía uma visita a umas minas mas nada me podia preparar para o peso que senti nesta dia. 

🚌 Viagem Até Potosí

No 9º dia de viagem (21 de Outubro) acordámos cedo em Uyuni para apanhar o autocarro rumo a uma das cidades mais históricas e marcantes da Bolívia. Durante 4 horas atravessámos paisagens áridas, sem nunca saber que seca era a alma da cidade que seria o nosso destino. 
Em 1545 um indígena descobriu prata no Cerro Rico. Ele nunca poderia imaginar que esta descoberta ia ser a fonte de riqueza que foi, não para ele, mas para a Europa, do outro lado do oceano. Para ele e o resto dos indígenas, foi tudo menos riqueza. 

⛏️ A Visita Às Minas: Uma Descida Ao Solo e à Realidade

Antes de entrarmos nas minas, parámos numa pequena loja onde comprámos as oferendas para os mineiros: folhas de coca, água, refrigerantes, tabaco, álcool (puro, para os rituais) e até dinamite. Nada disto é simbólico: é real e vital. As coisas que comprámos foram depois distribuídas pelos mineiros que se cruzaram connosco. Não há empresas a empregar estes trabalhadores. Pertencem a cooperativas, definem zonas exclusivas de trabalho e dividem os lucros depois de pagar impostos. As suas vidas (e das suas famílias) dependem do que conseguem extrair. Não existe qualquer sistema de proteção social ou segurança no trabalho.

Depois de recolhido o equipamento para nós (mais do que alguns mineiros usam) — fato-macaco, capacete, lanterna e umas botas — seguimos com a nossa guia, Fabi, uma jovem de 26 anos, filha e neta de mineiros. Explicou-nos que não existem mulheres mineiras, apenas guias. Quem nasce por aqui está quase destinado a trabalhar nas minas, seja como mineiro ou como guia.

🩸 Ritual à Pachamama

Antes de entrar na mina, passámos por uma pequena sala de pedra onde se realiza o sacrifício anual de uma lama, uma tradição indígena para garantir sorte, proteção e abundância. Os mineiros espalham o sangue do animal à entrada das galerias, como oferenda à Pachamama, a Mãe Terra.

😈 El Tio: O Guardião Das Minas

Já dentro da mina, encontramos a estátua de El Tío — uma figura meio demoníaca com chifres, sempre rodeada de cigarros, folhas de coca e garrafas de álcool. Os mineiros acreditam que é o guardião das minas e que devem respeitá-lo para se manterem em segurança. O nome “Tío” vem de “Dios”  e assim ficou porque os indígenas não conseguiam pronunciar o “D” castelhano. Todos os dias, sem falta, antes de iniciar o turno, os mineiros param junto a El Tío: oferecem folhas de coca, bebem álcool etílico, pedem proteção e sorte. Um ritual de respeito ao único que os protege ali.

👦 Viagem Subterrânea

Durante as 2h30 de visita, rastejámos, andámos de cócoras, respirámos ar carregado de poeira, zinco, enxofre e humidade. A certa altura, cruzámo-nos com rapazes de 14 e 15 anos, a carregar sacos de pedra nos ombros, suados, sujos e exaustos. A idade média de entrada nas minas é entre os 10 e os 14 anos. Muitos trabalham para ajudar a família, outros para pagar os estudos universitários.

Trabalham 6 dias por semana, 8 a 10 horas por dia, sem máscaras, sem garantias, sem saúde, sem futuro. A maior causa de morte aqui continua a ser a silicose pulmonar, uma doença irreversível causada pela inalação dos pós da montanha. A esperança média de vida de um mineiro é de 36 anos.

Hoje, a prata é escassa. A exploração concentra-se sobretudo em zinco, estanho, chumbo e os últimos resquícios de prata. Mas o trabalho continua tão brutal quanto antes.

Oferecemos os nossos pacotinhos de folhas de coca em silêncio. Não se come nem se bebe dentro das minas. 

Cerro Rico significa Monte Rico mas o verdadeiro nome que todos lhe dão é “a montanha que come homens”. Não foi difícil perceber porquê. Estima-se que oito milhões de pessoas tenham morrido nas suas entranhas durante séculos de exploração. Para além disto, a montanha está oca. Durante estes anos de exploração sem regras, foram criados caminhos e corredores que comprometem a sua estabilidade. Nos últimos anos parte da montanha já colapsou e o risco continua real, comprometendo também a vida de todos os trabalhadores diariamente. Apesar de estar classificado como Património Mundial da UNESCO, o Cerro Rico é alvo de duras críticas: organizações internacionais alertam que a Bolívia falha tanto na preservação do local como na proteção dos direitos humanos dos trabalhadores.

✨ A Luz Ao Fundo Do Túnel

Saímos ao fim de 2h30 com alívio, mas não mais leves. O peso da experiência não ficou debaixo da terra. Continuamos a carregá-lo connosco, para sempre.
Potosí deixa marcas: não apenas pela altitude, mas pela brutalidade do que ali ainda se vive. É uma cidade que exige respeito e memória. Um lugar onde a história não é passado, é presente.
Visitar as minas não é um ato de curiosidade, é um exercício de empatia. É ver o mundo pelos olhos de quem lá ficou. E voltar à superfície com a responsabilidade de não esquecer.

Como eles dizem: 

Com a prata de Potosí podia construir-se uma ponte até Sevilha… e outra de ossos dos que morreram a extraí-la.

Casa De La Moneda: o Cunho Da Prata

Dia 10 | 22 Outubro 2024

Depois da experiência marcante nas minas do Cerro Rico, o segundo dia em Potosí levou-nos até um lugar igualmente simbólico e revelador: a Casa da Moeda, onde toda a prata extraída ganhava forma e valor. Ainda não tinhamos digerido bem o poder do dia anterior, mas faltava ver em que se transformava tudo isto.

🏛️ Visita à Casa De La Moneda

A Casa de la Moneda de Potosí foi mandada construir pela coroa espanhola em 1572, dois anos depois da fundação oficial da cidade. O objetivo era transformar a prata extraída do Cerro Rico em moedas coloniais. As primeiras moedas foram cunhadas em 1575, e aqui produziram-se moedas até 1951. Inicialmente, as moedas não eram valorizadas pela forma, mas sim pelo peso da prata e cada grama contava.

Viajámos por salas escuras e austeras onde ainda estão expostas as máquinas de cunhagem manuais, movidas a força animal e humana: burros e indígenas giravam enormes rolos de madeira para achatar o metal.

Algumas curiosidades:

  • No auge da exploração, cerca de 60% de toda a prata mundial passava por Potosí.
  • A cidade chegou a ter 160 mil habitantes no século XVII — o mesmo que Paris ou Londres na altura.
  • Estima-se que 75% da prata produzida fosse enviada diretamente para Espanha.
🎭 O Enigmático Mascarón

Na entrada do museu encontramos El Mascarón, uma máscara metálica intrigante, com feições estranhas, colocada numa das paredes exteriores. Há quem diga que representa El Tío, o espírito guardião das minas. Outros acreditam que é uma herança europeia, e que simboliza Baco, o deus do vinho. Continua um mistério até hoje.

🎨 Arte e Religiosidade: A Virgen Del Cerro

Uma das partes mais impactantes da visita foram as pinturas religiosas com fortes traços andinos. Destaca-se a Virgen del Cerro, uma representação da Virgem Maria que funde o seu manto com a forma da montanha: uma metáfora poderosa da forma como a fé cristã foi usada para legitimar a exploração do território e das pessoas.

💎 A Bolivianita: a Pedra Das Princesas

Por último, passámos por uma sala com amostras de todas as pedras que se encontraram no Cerro Rico e na Bolívia. Vimos ao vivo a Bolivianita, uma pedra semipreciosa com tons de roxo e dourado, símbolo nacional da Bolívia. A mistura de ametista e citrino torna-a única no mundo: só existe em território boliviano. Assim que vi aquela pedra fez-me imediatamente lembrar o filme da Barbie Princesa e a Aldeã. Entendedores entenderão. 

A Casa da Moeda mostra o lado mais sofisticado da exploração colonial: aqui, a exploração ganhava forma de moeda, riqueza e poder, para depois ser exportado para a Europa. Uma simples moeda tinha por trás uma história bem negra de escravidão e sofrimento. 

⛪ Catedral de Potosí

De seguida, visitámos a Catedral Metropolitana, mais uma lembrança da arquitetura colonial no coração da cidade. A sua fachada imponente e o interior com altares dourados impressionam. O mais marcante foi mesmo subir até à torre, de onde se tem uma vista panorâmica sobre os telhados de Potosí e, claro, sobre o sombrio Cerro Rico.
Lá de cima, tudo parece calmo. Mas é também interessante perceber que aquela cidade estará sempre ligada ao Cerro Rico. A história não se apaga.

Ainda passeámos mais um pouco pela cidade, vimos o movimento das praças, dos vendedores de rua e quase não vimos turistas. O lado sombrio da história é poucas vezes apelativo para o turismo, ignorado. Mas a realidade nunca se consegue esconder por completo.

🚐 Rumo a Sucre

Depois de dois dias intensos em Potosí partimos em direção a Sucre: a capital constitucional da Bolívia. A estrada entre as duas cidades serpenteia por vales e montanhas, e ao descer dos 4090m de altitude para os cerca de 2800m de Sucre, sentimo-nos literalmente respirar melhor. Mas ainda com o peso do que vivemos nestes últimos dois dias.

Reflexões Finais

Visitar Potosí não é uma simples aula de história ou uma excursão exótica. É uma descida, literal e figurativa, ao coração de um sistema que, durante séculos, enriqueceu alguns e destruiu milhões. Ainda hoje, milhares de mineiros continuam a trabalhar em condições duríssimas, sem qualquer apoio institucional, sem proteção social, sem garantias básicas, sem futuro.

Potosí é um espelho desconfortável da história que carregamos, e muitas vezes escolhemos ignorar.

O Cerro Rico, com as suas galerias ocas e o colapso iminente, é um grito silencioso de tudo o que já foi explorado e de todos os que lá ficaram. As suas minas, a Casa da Moeda, as famílias cujas vidas dependem daquela atividade são testemunhos vivos de uma desigualdade que persiste.

A vida é dura aqui. Não há ninguém a cuidar deles além de El Tío.
Temos muita sorte na nossa lotaria social.
Apreciar a nossa realidade.
Empatizar com a dos outros.
Relativizar. Agradecer.

Este não é um destino de postais mas também não é um turismo de “coitadinhos”. 
É um turismo que nos obriga a olhar, sentir, pensar e lembrar. Um turismo que fica. Que nos obriga a carregar um peso para o resto da vida, e que nos obriga a ser humildes e gratos por tudo o que temos. 

Viajar não é apenas ver o mundo bonito. É olhá-lo de frente, como ele é.

Potosí já foi um dia sinónimo de prata e promessas.
Hoje fica a poeira. Nos pulmões de quem continua em busca de prata e da promessa de um futuro.

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