O sonho chamado Butão: 5 dias na Terra do Dragão do Trovão.
Dia 15 de outubro de 2022 embarquei para uma aventura de cerca de 18 dias no Nepal e no Butão. Fui em busca de um sonho, um sonho chamado Butão ou Terra do Dragão do Trovão. Foi a minha primeira viagem em grupo, um grupo que apenas conheci no aeroporto. Durante esta viagem, escrevi o que fui vendo e sentindo num caderno. Sempre foi minha ideia guardar para mim os meus devaneios e usar apenas a parte mais factual das notas, para escrever algo parecido com um roteiro. Mas quem me conhece saberá que sou uma pessoa que sente muitas coisas, e viajar para mim é isso. Por isso, partilhar esta viagem só faria sentido a par de tudo o que senti com ela. Neste artigo, irei levar-vos comigo neste percurso de 5 dias pelo Butão, passando por Paro, Thimphu e Punakha (apenas Butão para já, daí começar no dia 3). Vou mostrar-vos não apenas o que podem ver e viver nestes locais, mas também o que podem sentir. Em breve partilho também os dias no Nepal.
Nota: tudo o que está escrito dentro de \\ foi escrito em 2022, no decorrer da viagem. Tomei a liberdade de ocultar partes que ou são mais pessoais ou envolvem companheiros de viagem que acho que não faria sentido expor. Deixei algumas notas adicionais aquando da publicação deste artigo (2026).
Butão em resumo
- Capital: Thimphu
- Moeda: Ngultrum (BTN)
- Religião: Budismo Vajrayana
- População: cerca de 780 mil habitantes
- Melhor época para visitar: março a maio e setembro a novembro
- Idioma: Dzongkha
- Curiosidade: o país mede a felicidade através do índice de Felicidade Interna Bruta
Dia 3: Katmandu - Paro - Thimphu









17 de Outubro de 2022
Paro, Butão
\\ Chegados ao hotel, é tempo de fechar as malas, almoçar e seguir rumo ao aeroporto. Alguns sortudos conseguiram um lugar com vista para os Himalaias.
Embarcamos no avião e rumamos em direção a Paro. Para um voo de 1 hora acho que foi o mais rápido e menos aborrecido de sempre. Desconfio que se estivéssemos num barco, este teria afundado, dada a quantidade de pessoas do lado esquerdo, ansiosas por uma vista desimpedida para os Himalaias. Já eu, estava a um chinês gordinho e antipático de distância da vista. Ainda assim, as montanhas salpicadas de neve a furar as nuvens espreitavam pela janela enquanto eu me dirigia para um dos meus destinos de sonho. Fomos ainda brindados com uma sandes, um queque e uns amendoins butaneses. Para beber optei por copiar a senhora da frente e pedi uma cerveja. Era de arroz vermelho e não era muito boa, mas era butanesa, que era o que interessava naquele momento.\\
Paro é a porta de entrada para a maioria dos turistas e um dos vales mais bonitos do país, apelidado de “Vale dos Templos e dos Mosteiros”. Situada a 2250 m de altitude e rodeada de montanhas verdes e campos de arroz, destaca‑se pelo impressionante Paro Dzong e pelo icónico Mosteiro Taktsang (Tiger’s Nest), encaixado numa falésia a mais de 3.000 metros.
\\ Depois da primeira tentativa falhada, aterrámos em Paro e fomos recebidos por um dos aeroportos mais pequenos, mas mais bonitos em que já estive. Parece que cada detalhe foi pensado ao pormenor e cada cornucópia feita com muito amor e carinho. Passámos pela emigração e pelos passaportes, e a energia do grupo mudou. Estávamos todos tão felizes por estar ali. Acho que partilhava este sonho com estas pessoas e nem sabia. Há tantos sonhos que partilhamos e não sabemos. Pegámos nas malas e rumámos ao autocarro. Os guias prontamente trataram de atirar a nossa bagagem por uma das janelas traseiras.
Começámos a viagem e o guia logo fez questão de nos ensinar algumas palavras:
- Kuzuzangpo-la: Hello
- Kadrinchey-la: Obrigada
- Chu: água
- Gho: traje masculino
- Kira: traje feminino
Thimphu, Butão
Thimphu é a capital do Reino do Butão, situada também num vale a 2350 m de altitude, em plena cadeia dos Himalaias. É casa da família real butanesa, do governo real e judicial e é também centro religioso, político e comercial do país. Aqui, como em todo o país, não existem semáforos: o trânsito é orientado por polícias em pequenas torres azuis.
VAST Studio, Thimphu, Butão
\\ O nosso próximo destino foi o Vast Studio, uma galeria e loja de arte local. No Butão, os trajetos são previamente definidos pela agência local de turismo e só vais onde te levarem, são eles que decidem o que mostram aos visitantes. Nesta loja onde fomos, tudo é feito à mão, há peças que exigem 3 anos de trabalho. Reza a lenda que foi nesta loja que o Rei e a Rainha compraram as suas vestes para o seu casamento em 2011.
Seguimos depois para o hotel, com tempo para mais curiosidades pelo caminho:
- Há um jogador de futebol do Butão que é muito bom e joga na equipa da Índia. Como é admirador do Ronaldo, joga com o número 7.
- As casas butanesas não têm elevadores, mas há um centro de elevadores para que a população possa ter a experiência de andar de elevador.
- Keerma é o nome mais popular no Butão e serve tanto para homem como para mulher. Distinguem-se pelo segundo nome. Não há apelidos nem nomes de família.
Chegados ao Hotel Druk fomos novamente brindados com lenços ao pescoço, toalhas quentes para as mãos e um sumo natural de maçã e canela. Apressaram-se a identificar as nossas malas e a levá-las para os nossos quartos. Enquanto isso, conhecemos a diretora da agência de turismo local que nos ofereceu um postal e um bolo enorme de boas-vindas.
Segueiu-se o jantar no hotel e formou-se o grupo de 12 corajosas que enfrentariam o percurso do dia seguinte de 3h de subida e 1h30 de descida rumo ao Mosteiro.
Fomos muito bem recebidos. Creio que está incluído no preço.\\
Dia 4: Thimphu
















18 de Outubro de 2022
Mosteiro DodeDrak, Thimphu, Butão
\\ Após um rico pequeno-almoço de hotel, 12 corajosos rumaram de autocarro aquele que seria o ponto de partida para a subida ao Mosteiro DodeDrak. Começou de forma atribulada com o autocarro a saborear bem demais todas as curvas e buracos da estrada.
Chegados ao ponto de partida e após o guia informar que iríamos começar com calma, literalmente galgámos mato e subimos terrenos com uma inclinação imensa. Claro que a minha forma física fraca (um clássico queixume deste blogue) deu de si e tivemos logo duas desistências. Eu fiquei e assumi um ritmo mais calmo, deixei-me ir ficando para trás, também com a desculpa de ser companhia de viajantes mais velhos e mais corajosos.
O caminho foi duro. Mas mais duro ainda foi perceber que a pessoa mais nova do grupo tinha quase pior forma física que a mais velha. Viajar é um sonho e preciso de um pulmão que me comece a acompanhar.
De qualquer das formas, ao nosso ritmo, lá chegamos ao complexo budista e mosteiro DodeDrak, com várias residências dos monges e locais de meditação, envoltos numa tranquilidade fora de série. Este é um lugar extremamente isolado, mas com uma vista inacreditável sobre Thimphu. Tivemos direito a muitas curiosidades:
- O complexo alberga cerca de 100 monges
- Naquele complexo aceitam monges a partir dos 6 anos
- Pode ser-se monge entre os 6 e os 65 anos
- As famílias consideram muito bom ter um monge na família por isso muitas enviam os seus filhos muito novos
- Caso um monge se junte aos 6 anos, a sua primeira tarefa é aprender a ler e escrever
- Os monges estudam e podem ir para a faculdade
- Só são considerados monges após 3 anos de meditação como prova final
- Só podem casar se deixarem de ser monges e se forem casados e se quiserem tornar monges, terão de deixar a sua família
- Só vão uma vez por semana à cidade
- Os monges não podem votar mas podem aconselhar o governo
- Os monges são apolíticos
- No Butão, os monges vestem-se de vermelho. Diferentes segmentos do budismo usam cores diferentes
- Há 2000 freiras e 8000 monges no Butão, cerca de 8% da população
- Distância: 8km
- Duração: 4h30 ida e volta
- Ponto mais alto: ~3000 m
\\ Terminada a descida, voltámos ao autocarro rumo ao almoço, não sem antes aprendermos mais algumas coisas:
- Quando as pessoas morrem, os familiares levam bandeiras brancas compridas para as montanhas
- Segundo os censos de felicidade, as pessoas solteiras são mais felizes, diz o guia
- O ordenado mínimo do governo é cerca de 200 €/mês
- Os carros elétricos são subsidiados pelo governo
Buddha Dordenma, Thimphu, Butão
Depois de um almoço tranquilo seguimos em direção ao Buddha Dordenma, uma estátua de Buddha com 51,8 m de altura, feita de bronze com 1 diamante na testa no valor de 1 milhão de euros (não tenho a certeza se esta não será uma daquelas informações para impressionar os turistas). Fica no alto de uma montanha.
O guia começou a contar-nos algo de muito particular sobre aquele dia, que foi um dos momentos altos para mim nesta viagem. Naquele dia estava a acontecer uma peregrinação que reúne milhares de butaneses, uma vez que o representante máximo do Budismo do Butão se encontrava ali a dar palestras e a fazer orações. Nem queria acreditar!
Fomos subindo de autocarro até ao topo da montanha e as vistas eram incríveis: centenas de carros e milhares, sim, milhares de tendas. As pessoas tinham mesmo vindo de todo o lado. O cenário era incrível com a quantidade de monges e butaneses que tinham viajado para esta peregrinação anual. O que mais me impressionou até aquele momento, e particularmente neste local, foi o facto de não vermos mais nenhum turista. Acho que foi o tipo de turismo mais autêntico que tive até então. A fé e a religião movem mesmo montanhas e têm a capacidade de unir pessoas, isso é lindo.
Mais algumas curiosidade do guia, há 3 tipos de libertação no budismo:
- Através da audição (ouvir as orações e mantras)
- Através da visão (construir e apreciar mosteiros, estátuas de Buddha e arte religiosa)
- Através da meditação (afastando as más energias e atraindo o “karma bom”)
Museu da Tecelagem, Thimphu, Butão
Seguimos para o Museu da Tecelagem, onde pudemos ver as vestes usadas pela família real e aprender um pouco mais sobre o processo de tecelagem e sobre a família real.
O avô do atual rei (3º rei) morreu jovem, de doença, pelo que o seu filho, Jigme Singye Wangchuck, o pai do atual rei, começou a reinar aos 17 anos. Tem 4 mulheres, todas irmãs. No Butão, antigamente, o povo era mais poligâmico do que agora, uma vez que o êxodo para as cidades fez diminuir esta prática. No entanto, tanto homens como mulheres podem ter múltiplos parceiros, desde que o primeiro parceiro aceite. De qualquer forma, este rei resignou e deu a vez ao seu filho. Este, que é o atual Rei, já mudou a constituição para que as filhas primogénitas possam agora tornar-se rainhas e não apenas os filhos barões.
A Rainha Jetsun Pema Wangchuck, mulher do atual rei, conheceu-o com 13 anos e desde logo disse que se ia casar com ele. O na altura príncipe disse que se se voltassem a encontrar, casariam. E assim foi, casados desde 2011 têm 3 filhos (um nascido em 2023 já depois desta viagem). O povo acredita que foi o karma e que estão destinados.
Seguimos viagem até uma Stupa em memória do 3º rei do Butão, que foi o pai do Butão moderno: integrou-o na ONU e criou boas relações com os países à volta, como a Índia. Quando morreu de doença, a sua mãe mandou construir esta stupa: Memorial Chorten.
Demos ainda um saltinho ao mercado Kaja Throm que vende legumes e frutas, picantes, cogumelos, de tudo um pouco. O dia terminou com um jantar no Hotel Druk e o merecido descanso. \\
Dia 5: Thimphu - Punakha






















19 de Outubro de 2022
Punakha, Butão
\\ Partimos cedo de Thimphu, rumo a Punakha. No caminho o guia foi-nos explicando que a taxa de turista a pagar é elevada porque tem como objetivo proteger o país do turismo massivo e da possível destruição da essência do país. Ao mesmo tempo, visa garantir uma melhor e mais personalizada experiência a quem visita, uma vez que só é possível com guia.
Dochula Pass, Butão
Chegámos à primeira paragem: Dochula Pass. Que sítio incrível e cheio de mística. Este é um estreito a mais de 3000 m de altitude onde podemos ver 108 stupas, um templo e uma extraordinária vista para o Himalaias. O frio era imenso, mas não ofuscava o calor que as novas amizades estavam a proporcionar.
Chimi Temple, Butão
O almoço foi junto ao Chimi temple (templo da fertilidade), pelo que podemos dizer que estávamos nas Caldas da Rainha do Butão. Deu para algumas brincadeiras com os vários tipos de objetos fálicos com que nos cruzamos.
Seguimos pelos campos de arroz em direção ao templo, sempre com direito a pinturas e lojas com referências à fertilidade. Os pénis são sinais de “karma bom” e um símbolo da fertilidade. Estes encontram-se à venda nas lojas e em vários feitios: pretos, dourados ou dragónicos.
Chegámos ao Chimi Temple e fomos apresentados à sua história e à do “Divino Homem Louco”. Diz a lenda que este homem derrotou o demónio com o seu falo mágico. Era também fã de bom vinho e mulheres bonitas, pelo que trouxe ensinamentos diferentes do habitual para aqueles povos. Inclusive aconselhou-os a aproveitarem a vida e a fazerem muitas loucuras. O homem morreu e os seus familiares mandaram construir uma torre em sua homenagem. É parte integrante do complexo do templo e é símbolo e amuleto da fertilidade. Os casais que não conseguem ter filhos vão a este templo para serem abençoados. Diz também a lenda que quem der 3 voltas ao cilindro terá sorte e engravidará. Depois os casais devem trazer o bebé ao templo para ser abençoado. Os monges fazem o mapa astral e dão um nome ao bebé. Há também muitos turistas a cumprir este processo e há um livro de fotos dentro do templo que comprova todas as histórias de sucesso (e são muitas!). A fertilidade é muito importante no Butão, uma vez que é um país pouco populoso e é desejável garantir a renovação de gerações e preservar a cultura deste povo.
Aldeia e Mosteiro Nobgang, Butão
Seguimos a caminho até à aldeia de Nobgang. Esta é a aldeia onde nasceram as 4 irmãs do 3º Rei. Esta é uma aldeia super remota e muito pequena. Vimos ainda locais a praticar arco e flecha, o desporto nacional do Butão. Há torneios entre aldeias no final de cada ano, em fevereiro, e os prémios são televisões ou máquinas de lavar roupa.
Seguimos para um último mosteiro – NobGang Monastery – onde aprendemos mais algumas curiosidades:
- Os monges rapam o cabelo porque significa simplicidade e inocência
- Mastigam umas folhas com uma pasta para combater a fome e para os manter quentes e ativos. Embora seja viciante e prejudicial à saúde, é dos poucos prazeres e “loucuras” que lhes são permitidos
- A forma como batemos palmas (se a mão esquerda na direita ou vice-versa) é a forma que eles usam para determinar o nosso lado do cérebro dominante e com que mão deves escrever
Dia 6: Punakha - Paro














20 de Outubro de 2022
Punakha, Butão
\\ O dia começou com um lindo nascer do sol. No meio das montanhas e com as nuvens por entre os cumes. Há coisas e sentimentos que nenhuma fotografia capta e que palavras não podem mesmo descrever.
Mais algumas curiosidades e factos:
- Druk significa dragão, e o Butão é a “Terra do Dragão do Trovão”
- Para situações formais e entradas em monumentos os locais usam um lenço cruzado. O povo usa branco, os monges laranja, o rei amarelo, chefes de aldeia vermelho e branco, juízes verde e parlamento e conselho nacional usam azul. Quase todas as pessoas que vimos por aqui (exceto crianças) usam o traje nacional, andam todos super parecidos
- Houve uma guerra entre o Tibete e o Butão sobre os artefactos do Dzong mas ainda bem que ficaram no Butão porque estão mais seguros, dizem os guias. Como dizem os locais: tudo acontece por uma razão.
- Há o rio masculino e o rio feminino
- Os butaneses, por serem budistas, não matam animais. Os turistas comem animais importados ou mortos por quem não é budista. Os butaneses são vegetarianos
Punakha Dzong, Punakha, Butão
Voltamos ao autocarro e seguimos em direção ao Punakha Dzong. Construído no século 17 por Shabdrung, o líder religioso e político que unificou o Butão. Este nasceu no Tibete, mas tinha uma visão muito diferente do Budismo e então partiu para o Butão. Começou pelo Norte e unificou o Butão numa só nação. Quando chegou a Punakha, já tinha fama de unificador e mandou construir este Dzong (Fortaleza-Mosteiro). Foi ele quem introduziu as vestes tradicionais. Morreu em posição de meditação e foi mumificado. O seu corpo está numa parte deste Dzong e apenas pode ser visto por 3 pessoas: o rei, o chefe do clero (His Holiness) e o seu cuidador. Todos os reis são coroados aqui para ter a sua benção.
O Dzong foi construído à semelhança das casas tradicionais butanesas. Um dzong é uma fortaleza-mosteiro tradicional do Butão. Estes grandes edifícios servem ao mesmo tempo como mosteiro budista e centro administrativo, onde vivem monges e funcionam escritórios do governo local. Diz a lenda que o construtor dormiu ao lado do unificador e teve uma revelação durante o sonho de como deveria ser o Dzong. 1 ano depois o Dzong estava pronto.
Vimos neste Dzong o clássico quadro dos 4 amigos junto de uma árvore que já tínhamos visto em vários locais. Os 4 amigos são: o elefante, o macaco, o coelho e o pássaro. O pássaro trouxe a semente, o coelho regou, o macaco fertilizou e o elefante protege. Só assim conseguiram garantir uma árvore com muitos frutos. Este quadro encontra-se frequentemente à entrada das casas e é um símbolo da harmonia e da importância do trabalho em equipa. Há ainda no quadro (os mais completos) um homem de barbas longas e vários elementos da natureza como águas sagradas que representam a longevidade. Tem ainda uma flor de lótus (que floresce na lama) como lembrança de que devemos manter-nos puros até no meio da negatividade.
A História de Buddha
Também aprendemos sobre a história de Buddha no Dzong, com base num quadro enorme que não podemos fotografar (porque não nos deixaram tirar fotos dentro do templo), pelo que deixo convosco a história conforme aprendi e anotei nesse dia.
Buddha era um príncipe que nasceu numa família real. A sua mãe teve um presságio enquanto estava grávida de que o filho seria especial. Diz a lenda que já andava quando nasceu e que nasciam flores por onde quer que ele pisasse. Enquanto príncipe, era extraordinário: fazia arco e flecha, navegava e tudo fazia bem. O seu pai era astrólogo e previu que o filho seria um grande líder, quer seguisse o caminho administrativo, quer seguisse o caminho religioso. Enquanto crescia, o príncipe vivia no palácio isolado de todos os problemas do mundo, havia vinho, festas e mulheres e tinha uma vida de luxo.
Certo dia, decide sair do palácio e vê toda a realidade: vê uma mãe com um bebé, vê um homem velho, vê um doente… Começa a pensar na morte e em todas as coisas da vida e a querer perceber como escapar ao sofrimento. Decidiu sair do palácio: deu as coisas a um amigo, cortou o cabelo (primeira prova da simplicidade) e começou a meditação. As mulheres e o demónio tentaram perturbá-lo, mas apesar de todas as distrações conseguiu concentrar-se. Antingiu o Enlightenment / Nirvana e começou a ensinar e rapidamente monges começaram a segui-lo. Decidiu um dia que chegara a altura de partir e morreu no seu último Nirvana, deitado.
Paro, Butão
Despedimo-nos do Dzong e começamos um longo caminho rumo a Paro. Cruzámo-nos com a comitiva do Rei no caminho. Depois de algumas paragens chegámos a Paro. Primeira impressão: bem mais desenvolvido e com mais comércio. Seguimos para o almoço.
Ta Dzong, Paro, Butão
O resto da tarde foi de visita ao Museu Nacional Ta Dzong onde vimos trajes, artefactos, armas, uma coleção de selos , artigos do lar e várias outras coisas.
Fomos brindados novamente com o sol entre as montanhas a iluminar o vale neste fim de tarde. A última paragem antes do hotel foi no centro de Paro para umas comprinhas:
- Umas bolachinhas para o trekking do dia seguinte
- Um whisky butanês
- Uma manga desidratada (ainda hoje sou apaixonada por isto)
- 2 imans
- As tão desejadas bandeiras de orações e mantras em seda
Seguiu-se jantar no Hotel Naksel, banho e preparação mental para o trekking do dia seguinte. \\
Dia 7: Paro



















21 de Outubro de 2022
Ninho do Tigre, Butão
\\ Chegou o dia de visitar o mágico Mosteiro de Taktsang, Tiger’s Nest ou em português: O Ninho do Tigre. Acredita-se que este lugar estava cheio de espíritos maus e o mestre Guru Rinpoche (fundador e difusor do budismo no Butão) chegou até ao local do atual mosteiro montado num tigre e conseguiu subjugar o demónio. Acredita-se que o tigre era, na verdade, uma tigresa que representava uma das suas mulheres (a butanesa). Esteve neste lugar numa gruta a meditar durante 4 meses, sob a proteção da tigresa. Este é considerado um local com boas energias e no qual 4 meses de meditação equivalem a 40 anos.
Diz a lenda que foi um dos afilhados do “Louco Divino” que construiu este mosteiro bem mais tarde, no século 17. O mosteiro já sofreu dois incêndios na década de 90 (originados por velas e incensos). Começou a ser recuperado em 2000 e ficou terminado apenas em 2005.
Mais algumas curiosidades e crenças populares:
- O povo acredita que um rapaz nascido em 1993 é a reencarnação do “Louco Divino”
- Este rapaz visitou o mosteiro durante a sua reconstrução e identificou o local exato da meditação na gruta e contou a sua história
- Estuda atualmente noutro mosteiro uma versão do budismo muito ligada à astrologia
Começámos a subida e percebi logo que ia ser duro, ponderei ficar a meio. Mas as pessoas fantásticas que estavam comigo não me deixaram desistir. Chegámos a meio caminho, bebemos um chá e avistámos o destino final. Tinha de ir e cumprir o meu sonho. E fui. Chegados ao templo, descalçámo-nos e saboreámos a visita, com a proibição mais uma vez de tirar fotos. Tudo o que levávamos connosco ficou à porta do mosteiro, só entramos mesmo nós. Muito do que vivi ali ficou apenas na minha memória.
O dia a dia dos monges no Ninho do Tigre:
- Acordam às 4 da manhã
- Orações em jejum
- Estudo e ensinamentos
- Almoço
- Estudo e ensinamentos
- Lanche: chá das 3 da tarde. Depois não comem mais até ao dia seguinte
- Estudo
- Atividade física (como o futebol)
- Pôr do sol e orações vespertinas
- Estudo
- Dormir
- O exercício dos butaneses consiste maioritariamente em caminhadas pela montanha, mas a pandemia trouxe uma nova moda: aulas de zumba
- Não há revistas. Há 4 jornais com tiragem diária e 3 canais de televisão: um para notícias, outro para entretenimento e um terceiro para crianças. Têm programação em dzong e inglês
- Todas as casas devem ter uma sala de meditação e uma estátua de Buddha
- Há uma central termoelétrica em construção, financiada maioritariamente pela Índia e cujo acordo garante que o Butão terá de ceder a energia à Índia. Prevê-se que fique concluída em 2028
- As relações com a China não são más, mas a fronteira terrestre está fechada e a China não faz investimentos no país
Prova de Chá, Paro, Butão
De volta ao nosso autocarro típico, rumámos a uma quinta para uma prova de chás e uma surpresa. Provámos chá de manteiga feito com água, manteiga, sal e leite em pó. Super salgado! E cor-de-rosa porque era sal dos Himalaias. Tivemos também a sorte de provar aguardente de arroz e cereais tufados.
Por fim, a surpresa que ganhou o meu coração: música e danças tradicionais. Havia 2 instrumentistas, um tocava o que me pareceu uma harpa deitada local e o outro um bandolim butanês, como gostei de o chamar. Os meus amigos músicos que me perdoem, não tenho conhecimento para mais. A acompanhar, várias danças: abertura e encerramento de festivais, ode ao arco e flecha, honra ao unificador e também uma mostra de vários povos, aldeias e máscaras. As letras que cantavam falavam de paz, prosperidade, felicidade, saúde física e mental e desejos para que não soframos de ansiedades.
Voltámos para o Hotel Naksel embalados nas histórias uns dos outros. Subi ao quarto e sentia-me tão exausta que até o meu olho sofreu um pequeno derrame. Concretizar sonhos cansa. Foi o último dia de Butão. \\
Dia 8: Paro - Katmandu

22 de Outubro de 2022
Paro, Butão
\\ Começou o dia e acho que deixei os gémeos no Ninho do Tigre. Ainda bem que sou sempre uma farmácia ambulante em viagem. O guia contou-nos que já tinha guiado uma cantora portuguesa famosa: Marisa Liz! Seguiu-se a despedida e o guia Guenden disse-nos: “Sempre que ouvimos falar de Portugal eu penso no Ronaldo. Agora sempre que pensar no Ronaldo vou pensar em vocês.”
Seguimos viagem de avião até ao Nepal. \\
Irei contar-vos o resto desta aventura em breve.
Considerações Finais
O meu fascínio pelo Butão começou com um livro chamado “A Geografia da Felicidade” de Eric Weiner. Um daqueles livros que estavam na prateleira de casa e nunca ninguém tinha lido. O livro falava de um reino budista nos Himalaias que tinha inventado o conceito de Felicidade Interna Bruta, como substituto do Produto Interno Bruto (PIB). Este conceito foi criado pelo Rei do Butão nos anos 70 como resposta às críticas económicas ao seu país. Este conceito estava aliado ao seu compromisso de desenvolver uma economia adaptada à cultura e religião butanesas. Hoje em dia, vivemos agarrados a tantos objetos (definidos e impostos por outros) que, muitas vezes, não pensamos em adaptá-los aos nossos valores. Esquecemo-nos de incluir a nossa essência na equação. E é uma variável que pode mudar tudo. Incluindo o nosso próprio Índice de Felicidade Bruta.
Mais tarde, no 12º ano, na disciplina de Geografia C, fiz um trabalho sobre este país, onde fiquei a conhecê-lo ainda melhor. O bichinho começou aí. Quando estive na Tailândia (Lê mais sobre o meu Retiro de Meditação de 7 dias na Tailândia aqui), cresceu o meu fascínio pela Ásia e pelo Budismo. Quem já trocou ideias comigo sobre viagens sabe que este sempre foi um destino de sonho para mim. No entanto, o Butão é muito restrito ao turismo e quem o visita paga taxas diárias altíssimas, ao mesmo tempo que somente se pode entrar com guia local e roteiro planeado ao detalhe. Tudo isto é gerido pelo governo local. Sendo um país ainda bastante isolado do mundo, o turismo não é facilitado. Mas tudo isto só me dava mais vontade de ir e viver esta experiência autêntica. 2022 foi o ano em que consegui realizar este sonho. Ainda parece surreal ter estado aqui, mas a paz e felicidade que senti são bem reais. “Happiness is a place” (A felicidade é um lugar), como dizem os locais.
No final de contas, fica a experiência de ter visitado um país que tenho a certeza mudará muito nos próximos anos. Os jovens têm redes sociais e acredito que a mudança e o progresso serão inevitáveis. Tive a sorte de visitar o país e ver as suas raízes e as suas culturas. Apesar de sempre guiados e de só nos mostrarem “o que quiseram”, guardo com muito carinho este sonho que realizei.
Há um provérbio butanês que diz o seguinte: qualquer alegria que procures, podes alcançá-la por ti mesmo; qualquer angústia que procures, podes alcançá-la por ti mesmo. A verdade é que temos muito poder sobre o que desejamos e ainda mais sobre como lidamos com as situações que nos acontecem. Podemos ficar insatisfeitos com as subidas difíceis ou decidir apreciar a vista. Podemos ficar insatisfeitos com a vida que vivemos ou podemos decidir mudá-la. Podemos viver os sonhos dos outros ou criar os nossos. Mas, acima de tudo, podemos. O que quisermos.
Queiram, sonhem, vivam e partilhem!
Perguntas Frequentes Sobre Viajar para o Butão
É difícil viajar para o Butão?
Viajar para o Butão é um pouco diferente da maioria dos destinos, porque a viagem tem de ser organizada através de uma agência autorizada e todo o roteiro está fechado antes de entrares no país. É também obrigatório teres sempre o guia contigo. Esta regra faz parte da política de turismo sustentável do país.
Preciso de visto para viajar para o Butão?
Sim. O pedido é normalmente tratado pela agência de viagens e custa cerca de 40 dólares.
Quanto custa viajar para o Butão?
O Butão tem uma política de turismo sustentável que inclui uma taxa diária chamada Sustainable Development Fee (SDF), atualmente cerca de 100 dólares por pessoa e por noite.
Esta taxa ajuda a financiar projetos de educação, saúde e preservação ambiental no país.
Quantos dias são necessários para visitar o Butão?
Uma viagem de 5 a 7 dias já permite conhecer alguns dos principais destinos, como Paro, Thimphu e Punakha, além de visitar locais emblemáticos como o Paro Taktsang.
Qual é a melhor altura para visitar o Butão?
As melhores épocas para visitar o Butão são a primavera (março a maio) e o outono (setembro a novembro), quando o clima é mais estável e as vistas das montanhas dos Himalaias são mais claras.
É possível viajar sozinho pelo Butão?
Na maioria dos casos, os turistas estrangeiros precisam de viajar com guia e itinerário organizados por uma agência autorizada, o que faz parte da política turística do país.
Vale a pena visitar o Butão?
Sim, sem dúvida! O Butão é um dos destinos mais únicos do mundo, conhecido pelas suas paisagens nos Himalaias, mosteiros budistas e pela filosofia da Felicidade Interna Bruta, que valoriza o bem-estar da população.



